terça-feira, 13 de outubro de 2026

PRÊMI NOBEL DE QUÍMICA 2026- AS MOLÉCULAS QUIRAIS

O Prêmio Nobel de Química de 2026 foi concedido aos cientistas Henri B. Kagan (França) e Kenso Soai (Japão) por suas pesquisas pioneiras sobre reações químicas assimétricas e o controle de moléculas espelhadas (quiralidade). 
Principais Vencedores
  • Henri B. Kagan: Químico francês nascido em 1930, professor emérito da Universidade Paris-Saclay. Em 1986, descobriu o chamado efeito não linear, demonstrando ser possível quebrar a proporção equilibrada entre as duas versões espelhadas de uma molécula em uma reação química. 
  • Kenso Soai: Químico japonês da Universidade de Ciências de Tóquio. Em 1995, descreveu uma reação catalítica avançada e, em 2003, conseguiu realizar pela primeira vez em laboratório uma reação de autocatálise onde apenas uma única orientação molecular era formada.
    • Moléculas Quirais: Muitas moléculas existem em duas versões que são imagens espelhadas uma da outra (como a mão esquerda e a mão direita). 
    • Homoquiralidade: Embora reações de laboratório comuns gerem as duas versões misturadas, os organismos vivos usam predominantemente apenas um dos lados (fenômeno conhecido como homoquiralidade). 
    • Impacto na Medicina: Produzir a versão exata de uma molécula é fundamental na fabricação de remédios, pois uma versão pode curar enquanto a imagem espelhada pode ser ineficaz ou causar efeitos colaterais graves.

CARACTERÍSTICAS DAS MOLÉCULAS QUIRAIS:
As moléculas quirais são estruturas químicas que possuem uma característica geométrica única: elas não podem ser sobrepostas à sua própria imagem refletida no espelho.
O termo vem da palavra grega chiral, que significa mão. O melhor exemplo prático são as suas próprias mãos: a mão esquerda é uma imagem espelhada da mão direita, mas se você tentar colocar uma exatamente sobre a outra (com as palmas voltadas para o mesmo lado), elas não se alinham.

🎨 Enanciômeros: Os Gêmeos Espelhados
As duas versões de uma molécula quiral são chamadas de enantiômeros (ou isômeros ópticos). Elas possuem a mesma fórmula química, as mesmas conexões entre átomos, o mesmo ponto de fusão e a mesma densidade. No entanto, elas diferem em duas coisas:
    1. Desvio da luz: Um enantiômero desvia a luz polarizada para a direita (destrógiro) e o outro para a esquerda (levógiro).
    2. Interação biológica: Elas se encaixam de formas totalmente diferentes nos receptores do nosso corpo.

 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

CARGA COM ACTÍNIO 225 ROUBADA - RADIOATIVIDADE

 

pontos escuros mostram atividade cancerígena, antes e depois do tratamento com Actínio-225.

 ELEMENTO RADIOATIVO ACTÍNIO- 225
O elemento radioativo roubado em São Paulo foi o Actínio-225, que estava sendo transportado em uma van na Rodovia Presidente Dutra e seria utilizado no tratamento de um paciente com câncer de próstata no Hospital A.C.Camargo. ( 1/ outubro/2026)
Detalhes do Ocorrido
  • O material: Actínio-225 é um radioisótopo importado dos Estados Unidos para uso médico de dose única. 

  • O roubo: O furgão foi interceptado por criminosos armados na altura de Guarulhos/Vila Maria, e a carga desapareceu após o sequestro relâmpago do motorista. 

  • Risco: Segundo a ANSN, o produto apresenta baixo risco desde que mantido acondicionado em sua embalagem original.
O Actínio-225 (Ac-225) é um dos radioisótopos mais raros do mundo. Ele praticamente não existe de forma livre na natureza e precisa ser produzido de maneira artificial. 
Abaixo, entenda como esse elemento é obtido e por que ele revolucionou a medicina nuclear.

1. Como o Actínio-225 é obtido?
A produção global de Actínio-225 é complexa, cara e limitada a poucos laboratórios de alta tecnologia no mundo (como o Oak Ridge National Laboratory nos EUA). Existem três métodos principais: 
  • O método da “Vaca de Tório” (Decaimento): É a rota tradicional. O Urânio-233 decai para Tório-229, que funciona como uma “matriz” (daí o apelido de vaca). À medida que o Tório decai, cientistas purificam quimicamente o material de tempos em tempos para extrair o Actínio-225. 
  • Aceleração de partículas (Ciclótron): Para tentar aumentar a oferta mundial, utiliza-se ciclotrons para bombardear alvos do elemento Rádio-226 ou Tório-232 com prótons de alta energia. O impacto gera o Actínio-225 após processos de purificação extremamente rigorosos. 
  • Aceleradores de feixe linear de elétrons: Uma tecnologia mais recente que converte elétrons em fótons de alta energia para irradiar o Rádio-226, induzindo a reação que gera o isótopo. 

2. Quais são as aplicações médicas?
O Actínio-225 é a base de uma técnica inovadora chamada Terapia Alfa Direcionada (TAT). Na medicina, ele atua como um “míssil guiado” contra o câncer. 
Cientistas anexam o átomo de Actínio-225 a um vetor biológico (um anticorpo ou peptídeo) projetado para se ligar especificamente às proteínas que existem apenas nas células tumorais. 
Principais indicações e vantagens:
  • Tratamento do Câncer de Próstata Metastático: A aplicação mais comum e bem-sucedida é a junção do isótopo ao ligante PSMA (daí o nome Ac-225-PSMA). Ele é amplamente utilizado em pacientes com metástases graves que já não respondem a outros tratamentos convencionais. 
  • Destruição precisa do DNA do tumor: O Actínio-225 emite partículas alfa, uma radiação com alto nível de energia capaz de quebrar irreversivelmente as fitas de DNA das células cancerígenas, matando-as. 
  • Efeito poupador de tecidos saudáveis: As partículas alfa têm um alcance extremamente curto no corpo humano (menos de 0,1 milímetro, o equivalente a poucas células de distância). Isso significa que a radiação destrói o tumor por dentro, mas preserva os órgãos saudáveis ao redor, reduzindo drasticamente os efeitos colaterais em comparação com a quimioterapia convencional. 
  • Estudo para outros tipos de câncer: Além da próstata, pesquisas e testes clínicos avançados avaliam a eficácia do Ac-225 contra leucemia, tumores neuroendócrinos, glioblastoma (tumor cerebral) e câncer de intestino. 
  • Por ser um isótopo de um elemento químico puro (e não uma substância composta), o Actínio-225 não possui uma fórmula química molecular (como a água, H₂O).


terça-feira, 29 de setembro de 2026

A QUÍMICA DA CÁRIE DENTÁRIA

 

A QUÍMICA DA FORMAÇÃO DA CÁRIE – E A HIDROXIAPATITA. 

A química da cárie dentária é explicada fundamentalmente por um processo dinâmico de desmineralização e remineralização (DES-RE) dos tecidos duros do dente, controlado por variações de pH na cavidade oral. O principal componente mineral do esmalte dentário é a hidroxiapatita, um fosfato de cálcio cristalino cuja fórmula química aproximada é Ca₁₀(PO₄)₆(OH)₂.

1. O Equilíbrio Químico da Hidroxiapatita
Em uma boca saudável, a saliva está saturada com íons de cálcio (Ca²⁺) e fosfato (PO₄³⁻), mantendo o mineral do dente em um equilíbrio estável: 

Ca10(PO4)6(OH)2 (s)⇌10 Ca2+ (aq)+6 PO43− (aq)+2 OH− (aq)

2. A Queda do pH (Produção de Ácido)
Quando consumimos carboidratos fermentáveis (como a sacarose), as bactérias presentes no biofilme dental (principalmente a Streptococcus mutans) metabolizam esses açúcares. Esse processo de fermentação gera ácidos orgânicos, com destaque para o ácido lático. ( ver imagem acima)

A liberação de íons de hidrogênio (H⁺) reduz o pH da boca. Pelo Princípio de Le Chatelier, o excesso de H⁺ reage com os íons oxidrila (OH⁻) e fosfato (PO₄³⁻) da saliva
  • H⁺ + OH⁻ → H₂O

    H⁺ + PO₄³⁻ → HPO₄²⁻ 

Ao consumir e neutralizar os íons do lado direito da equação do equilíbrio, o sistema se desloca para a direita para compensar a perda. Isso força a dissolução da hidroxiapatita sólida do dente, caracterizando a desmineralização. 

3. O pH Crítico
O esmalte não se dissolve a qualquer nível de acidez. Existe um limite conhecido como pH crítico: 
  • Esmalte: pH 5,5

  • Dentina: pH 6,5 (mais vulnerável por conter menos conteúdo mineral) 

Quando o pH do biofilme cai abaixo desses valores, a velocidade de desmineralização supera a capacidade da saliva de repor os minerais. 

[Consumo de Açúcar] ➔ [Bactérias produzem Ácido Lático] ➔ [pH cai abaixo de 5,5] ➔ [Dissolução da Hidroxiapatita (Cárie)]

4. O Papel do Flúor (Remineralização Química)
Quando o pH da boca se normaliza (graças à capacidade tampão da saliva), o processo pode ser revertido (remineralização). A presença do flúor (F⁻) nesse momento altera positivamente a termodinâmica dos dentes.

O flúor substitui a hidroxila (OH⁻) na estrutura do dente, reagindo para formar a fluorapatita: 

Ca10(PO4)6(OH)2+2 F−→Ca10(PO4)6F2+2 OH−

A fluorapatita é quimicamente muito mais estável e possui um pH crítico menor (cerca de 4,5). Isso significa que o dente remineralizado com flúor se torna significativamente mais resistente a futuros ataques ácidos. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

MITCÔNDRIA E A ENERGIA CELULAR

 




A química da mitocôndria produz energia ao converter nutrientes dos alimentos e oxigênio em trifosfato de adenosina (ATP), a molécula que alimenta as reações celulares, por meio da respiração celular. 

As Etapas da Produção de Energia
  • Ciclo de Krebs (Matriz Mitocondrial): O piruvato (vindo da quebra da glicose) entra na mitocôndria, sofre oxidação e transfere elétrons ricos em energia para moléculas carregadoras, como o NADH e o FADH₂, liberando gás carbônico .
  • Do ponto de vista puramente químico, o Ciclo de Krebs (ou ciclo do ácido cítrico) é uma rota metabólica anfibólica que funciona como uma sequência de reações de oxirredução, descarboxilação e isomerização. O grande objetivo químico do ciclo é oxidar completamente um grupo acetila (−CH3CO) de dois carbonos a duas moléculas de CO2, transferindo esses elétrons para cofatores enzimáticos (NAD+ e FAD)

     Acetil-CoA (2C) + Oxaloacetato (4C)
                         │
                         ▼ (Condensação Aldólica)
                     Citrato (6C) 
                         │
                         ▼ (Isomerização via Desidratação)
                    Isocitrato (6C)
                         │
                         ▼ (1ª Oxidação e Descarboxilação) ───> NADH + CO2
                 α-Cetoglutarato (5C)
                         │
                         ▼ (2ª Oxidação e Descarboxilação) ───> NADH + CO2
                   Succinil-CoA (4C)
                         │
                         ▼ (Fosforilação ao Nível do Substrato) ───> GTP (ATP)
                    Succinato (4C)
                         │
                         ▼ (3ª Oxidação) ─────────────────────> FADH2
                    Fumarato (4C)
                         │
                         ▼ (Hidratação)
                     Malato (4C)
                         │
                         ▼ (4ª Oxidação) ─────────────────────> NADH
                    Oxaloacetato (4C)  <-- (Reinicia o ciclo)
    


    As 8 Etapas Químicas Detalhadas:
      1. Condensação Aldólica (Síntese do Citrato): O Acetil-CoA (2 carbonos) condensa-se com o Oxaloacetato (4 carbonos) através de um ataque nucleofílico. A enzima citrato sintase catalisa a reação, que consome uma molécula de água para hidrolisar a ligação tioéster do CoA, gerando Citrato (6 carbonos, um ácido tricarboxílico). É uma reação termodinamicamente irreversível que impulsiona o ciclo para a frente.

      2. Isomerização via Desidratação e Hidratação (Formação do Isocitrato): O grupo hidroxila (
        −OH) do citrato muda de posição para facilitar as oxidações futuras. A enzima aconitase desidrata o citrato formando o intermediário cis-aconitato e, em seguida, o hidrata novamente, transformando-o em Isocitrato. 

      3. 1ª Oxidação e Descarboxilação Oxidativa (Formação do𝜶-Cetoglutarato): O isocitrato sofre uma oxidação (perda de hidretos), onde o NAD+ reduzido a NADH + H+ .
      4.  O intermediário instável sofre uma descarboxilação espontânea, liberando a primeira molécula de
        CO2 .O produto é 0  𝜶 -Cetoglutarato (5 carbonos). 

      5. 2ª Oxidação e Descarboxilação Oxidativa (Formação do Succinil-CoA): O 𝛼-cetoglutarato sofre uma nova descarboxilação oxidativa por um complexo multienzimático. Mais um CO2 é liberado, outra molécula de NAD+ é reduzida a NADH, e o restante da molécula é ligado à Coenzima A por uma ligação tioéster de alta energia, gerando Succinil-CoA (4 carbonos). 

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terça-feira, 15 de setembro de 2026

AS NOVIDADES SOBRE FORÇAS ENTRE MOLÉCULAS

AS NOVAS LIGAÇÕES QUÍMICAS

A expansão dos conceitos de “novas atrações” na química moderna baseia-se na descoberta de que a divisão clássica entre ligações fortes (covalentes/iônicas) e fracas (intermoleculares) não é predefinida, mas sim um espectro contínuo. 
Cientistas têm mapeado fenômenos fascinantes que desafiam os livros didáticos:
1. Ligações de Flutuação de Carga (Charge-Shift Bonds)
Diferente das ligações covalentes tradicionais (onde os elétrons compartilhados geram estabilidade) ou iônicas (atração por transferência de elétrons), as Ligações de Flutuação de Carga ocorrem quando a energia de ligação é dominada pela ressonância quântica contínua entre as formas covalente e iônica. 
    • Onde ocorrem: Moléculas como o gás flúor (F2) ou o peróxido de hidrogênio (H2O2).
    • O mistério: Isoladamente, a estrutura puramente covalente dessas moléculas seria repulsiva devido à forte repulsão entre os elétrons internos. A estabilidade só surge graças à oscilação extremamente rápida (“flutuação”) de cargas. 

    • Representações tridimensionais de algumas moléculas. Cada linha representa uma ligação de par de elétrons (H = Hidrogênio; O = Oxigênio; C = Carbono; S = Enxofre). Imagem: https://www.advancedsciencenews.com/

2. O Híbrido Covalente-Intermolecular (Ligações de Hidrogênio “Ultrafortes”)
Tradicionalmente, a ligação de hidrogênio é vista apenas como uma atração eletrostática fraca. No entanto, pesquisadores comprovaram a existência de ligações de hidrogênio de curto alcance que se comportam exatamente como ligações covalentes, compartilhando elétrons de forma robusta. Essa descoberta apaga a fronteira entre uma “mera atração intermolecular” e uma “ligação química real”.
Criado com BioRender.com
3. Interações por “Ligações de Halogênio” e “Ligações de Calcogênio”
Semelhante às pontes de hidrogênio, cientistas mapearam com alta precisão atrações altamente direcionais causadas por átomos da família dos halogênios (como iodo e bromo) ou calcogênios (como o enxofre). Mesmo sendo átomos ricos em elétrons (e teoricamente repulsivos), eles desenvolvem uma região localizada de carga positiva — conhecida como Buraco-(sigma ) (Sigma Hole) — que atrai fortemente outras regiões negativas, revolucionando o design de novos medicamentos. 
O potencial eletrostático molecular de superfície e sua utilidade na caracterização de buracos σ e/ou p/π em entidades moleculares imagem: https://www.mdpi.com/
4. Metalicidade Aromática de Transição
Pesquisas recentes em química orgânica e de materiais isolaram aglomerados de átomos metálicos (como bismuto ou alumínio) que se atraem e se organizam em anéis, compartilhando elétrons de forma idêntica à estabilidade aromática do benzeno. Isso expandiu a clássica “ligação metálica” para geometrias moleculares complexas antes consideradas exclusivas do carbono.
Exemplos selecionados de metalabenzenos aromáticos, metalapiridinas e metalapiridínios. Os retângulos coloridos representam os elementos que são conhecidos por formar metalabenzenos aromáticos (em laranja) ou metalapiridinas/piridínios (em azul-marinho). imagem: https://www.sciencedirect.com/org

https://x-xquimica.com.br/as-novas-ligacoes-na-quimica-moderna/ 

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